A história da música eletrônica no Brasil

A história do Brasil com a música eletrônica tem pelo menos 35 anos. “Antes da internet rápida, em 2001, não havia cenário algum. Em 1984, porém, eu, Iraí CamposGrego e DJ Cuca dávamos os primeiros passos nos remixes nacionais, pressionando as gravadoras, já que o rock brasileiro explodia, fazendo todo o Brasil cantar em português”, rememora Meme, pioneiro em levar a música eletrônica para as rádios e a indústria. Até 1990, diversas bandas de sucesso — RPMCapital InicialBiquini CavadãoLegião Urbana… — foram remixadas para pista e rádio.

Com o dinheiro dos remixes, ele e os demais investiram em equipamentos que “dessem o shape e o som da música internacional”, uma vez que os engenheiros de estúdio no Brasil, segundo ele, não sabiam como fazer música de pista. O veterano destaca como “marco zero” da música eletrônica em português suas regravações com Iraí Campos, em 1989, no projeto Ponte Aérea, de covers de “Dancin’ Days”, das Frenéticas, e “Romance Ideal”, dos Paralamas do Sucesso

Quando as gravadoras começaram a “pedir remix de qualquer coisa”, perdendo audiência — Meme continua —, os DJs buscaram a experimentação e um som eletrônico próprio. A partir de 1990, surgiram tecnologias mais modernas, equipamentos mais baratos e novos produtores no país. E em 1995, o álbum Eu e Meme, Meme e Eu, de Lulu Santos, marcou outro boom da música eletrônica em português.

Os DJs aproveitaram a festa para conquistar um lugar ao sol no exterior, e a música em português adormeceu, conforme continua narrando Meme. A geração de DJs anterior à atual — com exceções, como Gabe — enterrara o português.

“Tentou de tudo para parecer internacional, mas acabou apenas fazendo warmup para os gringos no Brasil. Uma geração arrogante, que desdenhou o nosso idioma por achá-lo ‘pouco cool’, e que está desaparecendo. A turma nova não tem essa referência, voltando a fazer todo mundo cantar — com praticamente as mesmas canções, diga-se de passagem. O período de trevas acabou”, dispara o artista, que desde 2005, tem apresentações regulares nos verões europeus, além de ser residente em um clube na Itália.

“E começaram a vir, no final da década, mais samples de jazz brasileiros. A gente já estava bebendo de uma fonte consolidada. Só que, na época, não havia espaço para os DJs, considerados sonoplastas.

Mesmo entre os brasileiros, o uso do português nas músicas ainda gera estranhamento. “O único estilo com carta branca para mixar é a bossa nova”, atesta DANNE. Já foi pior, mas o preconceito ainda existe, e o DJ da nova geração o atribui ao pouco valor que o brasileiro em geral dá ao que é seu — principalmente o que vem da periferia e do subúrbio.

Patife considera o movimento positivo: gera mercado, parcerias, intercâmbio. “É um grande ganho. Independentemente de a música ser bonita ou não, o mercado está sendo fomentado. Independentemente do objetivo, isso vai levar pra frente. Não existe música ruim, existe público pra tudo”, ressalta. E dá seu recado aos novos DJs: “Música feita pelo oportunismo, pela onda, tem tempo de vida curto. Se você quer explosão rápida, tem um caminho. Se quer uma carreira longa e que a sua música fale com o coração, o caminho é outro”, argumenta. 

Meme, entretanto, vê nesse cenário de redescoberta da música brasileira a vontade de atender à audiência e também de lucrar. A tecnologia, analisa, fez surgir em maior número DJs “famintos pela fama”. Por outro lado, pontua que “a corrida ao pote de ouro serve como ferramenta para um desenvolvimento rápido e visível do trabalho”.

“Não consigo ver essa ideia vinda do coração de nenhum deles e, sim, da cabeça. O que não tira o valor da iniciativa. Já participei de reuniões em que DJs listavam nomes de hits antigos num papel para chegar a um consenso sobre qual deveriam regravar para ter sucesso. E ajudei a realizar alguns deles por trás das cortinas”, revela.

Para onde a nova onda da música eletrônica brasileira vai levar? DANNE sugere que o sucesso pode estar no rastro do K-pop: “Eles mixaram com maestria o coreano com o inglês e virou música de exportação”. Patife, por sua vez, afirma que o Brasil ainda produz muito para pista de dança: “Assim não vai ter streaming. Por outro lado, acho que nada mais é underground. O gostoso é a conexão, e a influência latina é imensa”.    

“É ingenuidade, até porque isso já existe nas pistas de house há anos. O que dá certo é o bem feito e o que faz o povo sacudir, independentemente do idioma ou da qualidade de áudio. De minha parte, nunca houve um desvio musical, mesmo quando experimentei temperos diferentes. Meu papel sempre foi evoluir meu som sem mudar quem eu sou. Pode apostar que dá certo”, conclui.

E se eletrônica com cuíca dá samba, vamos dançar!

Fonte: https://www.phouse.com.br/de-1984-a-2019-a-historia-da-musica-eletronica-com-tempero-brasileiro/